quinta-feira, 3 de abril de 2008

High-tech campónio

Hoje, no jornal das 8 da SIC, foi revelado mais um prodígio da técnica: os rebanhos de cabras, ao devorarem a vegetação (ie, a massa combustível, como dizem os bombeiros) ajudam a prevenir os incêndios, ou pelo menos a sua intensidade e velocidade de propagação.

Valeu a pena fazer o protocolo com o MIT e a Microsoft! O país está mesmo a entrar nos eixos.

Com o tempo, talvez as "instâncias superiores" e até mesmo esta jornalista ainda percebam que se a Agricultura não tivesse sido votada ao abandono nas últimas décadas, e se houvessem mais rebanhos, os incêndios não teriam as dimensões calamitosas que têm.

Além disso, cabras e ovelhas conseguem uma coisa que os helibombardeiros não conseguem: produzir leite (e lacticínios), carne, lã e peles. É compatível com a exploração florestal e, supresa das surpresas, gera emprego; até ao alcance dos pobres dos licenciados. Não é tão high-tech, tão wireless, mas funciona, mesmo no Século XXI.

2 comentários:

Daniel Conceição disse...

Quando Michael Porter fez um estudo para a competitividade de Portugal (há muitos, muitos anos atrás, num Governo do Prof. Cavaco Silva) em que se conclui o óbvio, que se deveria de apostar em criar vantagens competitivas, naquilo que se fazia bem, levantou-se um coro de protestos e o dito estudo foi engavetado sine die. É que, para desagrado de muitos, Porter referia (entre outros) casos como a produção de cortiça e o azeite. Não foram contabilizados os danos económicos associados ao aumentos das assimetrias e à desertificação correlacionados com um abandono cego do sector primário, porque estes são muito dificilmente contabilizáveis. (Os impactos económicos nas áreas sociais e ecológicas são sempre impossiveis de contabilizar a priori). Teria sido mais sensato optar por uma reconversão. Note-se contudo que o erro não foi só nosso, a Espanha (ao contrário da França) prosseguiu idêntica política, conclusão: temos uma Península Ibérica cujo eixo central está desertificado e envelhecido.
Isto foi bastante mais grave para Portugal do que para Espanha, pois nós não tinhamos um indústria tão bem apetrechada como Espanha.
Na economia não há almoços grátis, mesmo que a factura pareça quase insignificante, pagar-se-á cada ingrediente da receita, a longo prazo e com juros...

Joao Quaresma disse...

Obrigado pelo seu comentário, com o qual estou 100% de acordo.

Portugal teria pelo menos mais 1/5 de PIB se aproveitasse o seu espaço agrário (e aqui incluo a agricultura, o ecoturismo e a desconcentração urbana, como forma de aumento da qualidade de vida e de produtividade).

Um dos exemplos maiores e menos falados do abandono e da perda de identidade e cultura rural é o desperdício do cavalo enquanto recurso económico: um cavalo serve para passeio, para desporto+aventura, até para terapia e para vender (e naturalmente exportar). É também um óptimo formador de personalidade («Os cavalos civilizam os homens»), algo de que a nossa juventude tanto precisa. Tudo isso tem sido desperdiçado quase por completo, em resultado da ignorância urbano-pateta que é um dos flagelos que afecta o país.

Com os melhores cumprimentos,

JQ